semcp

Archive for AM|Yearly archive page

A History of European Art – complete video course

Em Literatura, 2011/12/20 às 08:29

By The Teaching Company (TTC/TGC), altogether 48 lectures, each lecture +- 30 minutes (110MB): Mediafire

“We can’t find what you’re looking for!” – algo sobre a lógica do turismo

Em Teoria, 2011/11/05 às 10:57

Como todo assunto que faz parte das nossas preocupações diárias, turismo é mais um dos temas que passaram despercebidos pelas ciências humanas até pouco tempo atrás. Uma busca por bibliotecas e mesmo pela internet confirma o quanto demorou para que surgissem as primeiras tentativas de reconstruir uma “história do turismo” ou análise geral de o que leva pessoas a aproveitar a mobilidade geográfica que a tecnologia atual lhes provê para passar horas/dias esperando por um destino do qual só se ‘ouviu falar’. Ainda assim os resultados que temos são insatisfatórios; com exceção de “Elementos de semiologia” de Roland Barthes e o ensaio de Jonathan Culler sobre o qual vou comentar algo em seguida, há um território extenso a ser percorrido que nos diga algo a respeito das causas e expectativas coletivas que se ligam à prática do turismo.

‘Fazer turismo’ parece ser algo virtualmente oposto a ‘sair e visitar algum país estrangeiro com fins específicos’ – i.e., com fins profissionais ou legais. Mais de uma vez ouvi dizer de estrangeiros que visitaram São Paulo o seguinte: “Eu fui para São Paulo mas fui a trabalho, não estive de fato na cidade. Ainda quero voltar.” O que em qualquer outro nível de discurso pareceria um contrassenso, quando se trata de turismo tal afirmação é clara: em um nível geral, parece que as expectativas envolvidas em planejar uma viagem turística não remeta apenas a uma curiosidade de conhecer algum lugar do qual se ouve falar boas coisas — esse tipo de apelo simplesmente não move o tipo de indivíduos que somos hoje em dia. Novidade não é mais um critério que por si só justifique nosso gasto de tempo e dinheiro. Turismo parece envolver, ao contrário, uma expectativa por transcendência e transfiguração (bastante abstrata, na verdade) que explica os 7 trilhões de dólares gastos (só no ano passado) neste grande negócio: de toda viagem esperamos um ‘evento único’, uma ‘experiência intransferível’, ‘algo que não se pode comprar’ – mas que inevitavelmente estamos comprando.

É justo dizer que, em uma primeira fase, turismo significa simplesmente conhecer por conhecer, ou estar em lugares ‘imperdíveis’: guias de turismo e turistas em geral adoram veicular a ideia de que há um número mínimo de lugares a serem vistos e presenciados para que de fato se tenha ‘vivido’ um destino turístico qualquer. Daí surge as famosas fórmulas: Paris = Torre Eiffel, Nova Iorque = Estátua da Liberdade, Empire State Building, Berlim = Unter den Linden, restos do muro, … Lugares que passam despercebidos pelos cidadãos locais –isso é óbvio– mas que de alguma forma condensam em si ‘francezidade’, ‘americanicidade’, ‘germanicidade’ para o turismo comum. A experiência com o que é diferente de nós próprios e nossos modos de vida supostamente é uma experiência ‘sem igual’, que ‘não se atinge por meio de livros’, que ‘muda completamente quem você é’ (todas essas são frases de turistas que ouvi mais de uma vez). Conforme mais pessoas têm mais acesso a mobilidade geográfica, e o cosmopolitismo mesmo facilite a condição de viajantes, mais surgem grupos que buscam ir ‘mais a fundo’ em sua experiência com a alteridade: é comum ver hoje em dia turistas ingleses apontando para os grupos tão reservados e disciplinados de turistas japoneses e desaprovarem a mania horrível que alguns, menos preparados, têm de se contentarem em visitar somente locais vistos em qualquer cartão postal. Uma leva mais jovem de turistas parece desaprovar em seus pais ou viajantes de outros locais a modalidade mais consumista de turismo, feito em hotéis luxuosos que simulam um senso de conforto e amistosidade que simplesmente não faz jus à experiência de sair de seu habitat e estar em um local exótico, novo.

Os exemplos de vergonha alheia entre turista são inúmeros; Jonathan Culler chega até mesmo a identificar este tipo de hostilidade e competição entre turistas como categoria essencial do turismo:

“Americans on bus tours feel superior to groups of Japanese, who seem to be wearing uniforms and surely understand nothing of the culture they are photographing [...] the touristic code — an understanding of the world articulated by the moral injunctions which drive the tourist on—is the most powerful and widespread modern consensus, yet the effect of these shared values is not to create solidarity within the international community of tourists but hostility, as each wishes the other tourists were not there.” (página 4)

Curiosamente, já existem diversas agências de turismo e editoras de guias de viagem, para não falar em comunidades de internet inteiras, aptas a atender a experiência do lado mais ‘dodgy’ do estrangeiro. Em outras palavras, multiplicam-se mercados de novas modalidades de turismo conforme ele é desmistificado como apenas mais um negócio lucrativo, avesso ao tipo de experiência gratuita e livre de relações burocráticas que parte das pessoas vivendo em democracias capitalistas parecem aspirar. A nova imagem do viajante sustenta uma ideologia de que turismo (assim como a vivência de sua própria cidade natal) deveria ser algo diferente de mero consumismo ou devoração de imagens/paisagens que já passaram pelo crivo de outros seres humanos. Busca-se algo novo, intransferível, que só você, com sua infinita disposição, pode alcançar. Além disso, cidades e países têm algo de mais real a oferecer, e este ‘real’ parece ser mais palpável em caronas com desconhecidos e restaurantes de operários do que em resorts luxuosos com atendentes trilíngues prestativos. Essa busca por uma experiência humana mais substancial incutida no ‘novo turismo’ — árdua e dependente de força de vontade como qualquer experiência verdadeira de aprendizado — depende em grande medida de confrontarmos nosso senso de perigo e nos mesclarmos em um local no qual não somos exatamente bem-vindos.

Jonathan Culler é cético em relação a ambas modalidades de turismo. Ele considera inquestionável o quanto viagens podem ser intelectualmente produtivas, relaxantes e por si só excitantes — nós compomos afinal um recorte da história da civilização que se prende a rotas fixas diárias (casa-trabalho-casa) e que claramente se excita com a idéia de quebrar este aprisionamento voluntário. Ao investir nossas imagens de desejo neste tipo de experiência única, entretanto, deixamos veicular em nossas próprias expectativas diversos mitos tipicamente modernos. Em seu ensaio fica inexplorado o poder pedagógico ou de transfiguração da experiência turística — com razão, já que falar disso é geral demais, dependendo da experiência de cada um, e não algo intrínseco ao turismo. O que é ressaltado é, portanto, justamente o tipo de construção mítica que surge ao redor dessa experiência social tão comum e simultaneamente tão ignorada. Para o autor, a experiência do turismo como um todo, desde o “turismo disneylândia” ao “turismo da busca por autenticidade”, parece mais revelar uma ânsia por purismo do que realmente se constituir como uma experiência transfiguradora em um nível social: as pessoas viajam cada vez mais e isso não significa que elas estão mais abertas a diferenças culturais e com um contato produtivo com a alteridade. Pelo contrário, o turismo prolifera relações de hostilidade entre turistas:

“Once one recognizes that wanting to be less touristy than other tourists is part of being a tourist, one can recognize the superficiality of most discussions of tourism, especially those that stress the superficiality of tourists. [...] one should emphasize that tourists do set out in quest of the authentic. Proof of that desire is that authenticity is a major selling point in advertisements and travel writing. [...] The distinction between the authentic and the inauthentic, the natural and the touristy, is a powerful semiotic operator within tourism. The idea of seeing the real Spain, the real Jamaica, something unspoiled, how the natives really work or live, is a major touristic topos, essential to the structure of tourism.”

É intrigante que cada uma das modalidades opostas de turistas se ligam pela mesma busca pela identidade verdadeira de seu destino de turismo, ainda que cada grupo pense que a encontra de uma forma distinta, i.e. de acordo com suas preferências pessoais.

[...] ”One of the characteristics of modernity is the belief that authenticity has been lost and exists only in the past—whose signs we preserve (antiques, restored buildings, imitations of old interiors)—or else in other regions or countries. [...] the semiotic process at work has a curious effect: the proliferation of markers or reproductions confers an authenticity upon what may at first seem egregiously inauthentic.” [...] ”The authentic is not something unmarked or undifferentiated; authenticity is a sign relation. [...] the authenticity of what lies off the beaten track and is thus apparently unexpected and the authenticity a sight derives from its markers, so that tourists want to encounter and recognize the original which has been marked as a sight. These seem rather different cases but they are in fact intimately related [...]“

E haveria uma justificativa cultural para este dado, que paradoxalmente une duas modalidades bastante opostas de turistas: a modernidade cultural opera com a crença de que autenticidade dos modos de vida e experiência se perdeu por algum motivo e deve ser resgatada (i.e. para sociedades primitivas e estratificadas o ‘autêntico’ nunca foi uma categoria problemática de fato). A presença deste pensamento no turismo é apenas uma reverberação de um utopismo inerente ao comportamento coletivo de sociedades de diferenciação – no nível discursivo parece fazer mais sentido dizer que há algo de autêntico a ser encontrado em Paris além de “um monte de concreto e pessoas vivendo suas vidas como conseguem” que, até mesmo para cidadãos franceses, não constituem um todo de significado, uma ‘identidade’ propriamente dita. Cidades são estruturas tão complexas que cessam de ser estruturas, deixam de ser sistemas estruturalmente palpáveis para o olhar analítico.

Não se faz turismo na própria cidade porque as vivenciamos suficientemente. A falta dessa estrutura identitária que una todos os paulistanos, por exemplo, não nos dá abertura para isso: você não vai sair em busca da essência de São Paulo – você vai para Kathmandu tentar deduzir uma identidade com as poucas coisas que conseguiu ver lá — e justamente por que vai poder encontrar somente algumas poucas coisas. A categoria de alteridade do lugar que se visita e da vida que se desdobra lá nos é útil para fins de turismo enquanto continuar a ser radicalmente diferente de nós mesmos e de nossas vidas diárias.*

O ‘autêntico’ como alvo é a categoria mágica tão presente nesta e outras práticas sociais que parece atender mais a uma ânsia infeliz por substancialidade e sentido do que de fato atender à realidade das experiências sociais. Infelizmente o autor não explora devidamente esse motivo cultural por detrás da operação semiótica do turismo moderno, ainda que muitas dessas respostas pareçam coerentes com o trabalho de Niklas Luhmann sobre a diferenciação social e aumento da complexidade da vida coletiva (vou tentar postar algo sobre em breve).

Notas: * Lacoue-Labarthe parece ter algo a dizer sobre isso em “The Subject of philosophy”. O turismo parece oscilar confortavelmente entre essa duplicidade entre Identidade e Alteridade; sua entrega voluntária e relativamente custosa à alteridade só a aceita enquanto categoria que complementa minha identidade dialeticamente, não de forma mais radical. [desenvolver]

Links:  a primeira aula do curso “European cultura history 1660-1870″ de George Mosse discorre sobre o ‘surgimento’ do turismo voluntário no século XVII [em mp3; clique aqui]

“Consciência-de-si demasiada resultando em confusão e paralisia”

Em Outros assuntos, 2011/11/02 às 16:48

Esse blog foi remodelado. Antes ele serviu como depósito de discussões mais acadêmicas que matavam de sono todos seus leitores, a não ser pessoas que também passam seu tempo matando os outros de sono — seja falando de livros/filmes ou das discussões filosóficas que tiram o sono delas. A proposta pra essa nova ‘fase’ do blog é continuar falando dessas coisas — sério, senão vai me restar falar da minha vida pessoal, que não é muito cinematográfica –, mas falar disso tudo de forma diferente. Vou me restringir a recomendar coisas ‘interessantes’, eventos, colar trechos que me inspiram o suficiente pra sentar na frente do computador e alimentar esse blog.

O motivo pra essa reformulação: minha memória está indo pro saco por motivos de idade e químicos. E uma pessoa sem memória virtualmente não existe, a gente não aceita que viveu algo se não retém um mínimo de impressões sobre essas coisas. Me deparei com algo que escreveram há mais de 300 anos que dizia o seguinte:

[O acaso dá os pensamentos; o acaso os tira; não há arte para conservá-los ou adquiri-los. Pensamento que escapou: gostaria de escrevê-lo e em vez disso escrevo que ele me fugiu...] — Pascal, Penseés §370

Já sentiu isso alguma vez? Agora já sentiu seu ano se resumindo a essa formulação? Isso justifica o blog, em partes. Seguindo o modelo ‘homem como monstro autobiográfico‘, vou tirar a cabeça da areia e tentar garantir pro futuro alguma memória de coisas que valeram a pena num nível cerebral.

Agora: Nenhuma dessas fórmulas e motivos te dão garantia qualquer do valor desse blog; resta esperar que o conteúdo que preencherá essas páginas dêem de alguma forma. A internet é cheia de lixo autoreflexivo [continua]